Junior Escafura

Luiz Carlos Escafura Junior ou, simplesmente, Junior Escafura, como é conhecido, é compositor, sambista, experiente Diretor de Harmonia e, desde muito jovem, construiu uma relação intensa com o Grêmio Recreativo Escola de Samba Portela. Profissional de muitas atividades, ele nos conta que o samba nunca deixou de ser a mais importante delas. Após uma passagem pela Imperatriz Leopoldinense, Junior Escafura volta à escola do coração e promete ajudar na briga pelo título de 2020. É filho de Luiz Carlos Escafura, Presidente da Portela entre 1995 e 1997. Nesta breve entrevista, iremos conhecer um pouco da história deste carioca nascido no bairro de Bonsucesso e que se tornou uma personalidade portelense.

Portelamor: Como se deu sua entrada no mundo do samba ?
Comecei cedo no mundo do samba. A primeira vez em que desfilei foi na Intendente Magalhães, pelo Bloco de Enredo Infantes da Piedade. Saí na Ala das Crianças, tinha apenas seis anos de idade e fui fantasiado de índio. Fomos campeões e lembro que teve festa no bairro da Piedade e na Abolição. De lá pra cá não parei mais com o carnaval.

Portelamor: Seu pai te influenciou nessa entrada no mundo do samba?
Meu pai sempre foi sambista, um verdadeiro folião. Era empresário de eventos e lançou muitos artistas através do Sambola e do River Futebol Clube (tradicionais clubes da Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro). Herdei essa paixão dele, pois cresci nesse meio e desde pequeno escutava pagodes e sambas-enredos. Logo surgiu a paixão pela Portela, que era a escola que meu pai sempre frequentava e onde desfilava. Meu pai foi Presidente de Ala, Diretor, até chegar a ser Presidente da Portela.

Portelamor:  Conte-nos um pouco sobre sua relação, sua história com a Portela.
Acho que minha história com a Portela vem de outras vidas (risos). Minha mãe conta que quando eu era pequeno tinha paixão por águias. Quando comecei a entender um pouco mais e vi que a águia era o símbolo da Portela, aí não teve mais jeito. A paixão me pegou. Como meu pai já frequentava a escola, eu fui me aproximando de lá e sempre pedia pra ele me levar na quadra, até que um dia ele finalmente me levou. Minha primeira impressão não foi boa. Eu tinha uns nove anos e fui barrado na porta, pois eu estava de camiseta e naquela época a Portela, sempre muito tradicional, não permitia a entrada de pessoas com camisa sem manga, mesmo sendo uma criança. O Djalma, antigo Diretor Geral de Harmonia, morava em frente e tinha um bar onde todos paravam antes de entrar para os ensaios. Foi quem me deu uma camisa da Portela pra que eu pudesse entrar na quadra. Depois disso, ficou tudo bem e senti uma emoção que me contagiou e o amor pela Portela só aumentou. Depois comecei a desfilar como componente da Ala Sambola, no ano de 1992.

Portelamor:  O que representou para você, ter sido presidente da Ala de Compositores Ary do Cavaco?
Ser Presidente da Ala de Compositores da Portela foi uma honra muito grande e uma surpresa também, quando recebi o convite do presidente Nilo (Nilo Mendes Figueiredo, Presidente da Portela de 2005 a 2013). Eu já era compositor da escola desde 1998, disputando sambas-enredos e sambas de terreiro. Em 2005, houve uma mudança muito grande na escola e a ideia do então Presidente era rejuvenescer a Portela em todos os setores. Assim, acabei escolhido e fiquei à frente da Ala durante nove anos. Sempre tive o respaldo dos mais antigos, como Monarco, Jair do Cavaquinho, Ary do Cavaco, Edyr, que foram os meus maiores incentivadores na época. Foi um momento de muito aprendizado. Ser responsável por uma Ala com nomes como Noca da Portela, Davi Correa, Mauro Diniz e tantos outros compositores de renome e eu sendo apenas um garoto foi um desafio e tanto, mas acho que cumpri minha missão.

Portelamor:  O que levou, ocasionou a sua saída da Portela em 2013?
Em 2013 a Portela passou por uma complicada eleição, em que a Escola necessitava de mudanças estruturais. Eu na época não fiz parte de nenhuma das duas chapas concorrentes, por opção mesmo. Tinha sido convidado por ambas as chapas e fiquei entre o coração e a razão. Achei por bem não participar do processo eleitoral. Fui lá, no dia da eleição, exerci meu direito de voto, como sócio benemérito e fui embora. Nem acompanhei a apuração. No dia seguinte ao resultado, com a vitória da chapa Portela Verdade, várias mudanças começaram a ser feitas na escola, mudanças em cargos da administração etc. Fui lá, parabenizei os vencedores e me coloquei à disposição para o que precisassem. Disseram que contavam comigo. Umas duas semanas depois, mais ou menos, fui chamado para uma reunião com o Presidente (Serginho Procópio) e o Vice-Presidente (Marcos Falcon), que me falaram das mudanças nos cargos que eu ocupava na época, que era a Direção de Carnaval, de Harmonia e Representante da Escola na LIESA. Me deixariam à frente da Direção de Eventos. Na Harmonia, formariam uma comissão. Falei que tudo bem. Fui pra casa, pensei muito e achei que era hora de dar um tempo em cargos na Escola. Estava querendo fazer outra graduação na faculdade e assim pedi ao Presidente e ao Vice a demissão dos cargos de Harmonia e Direção de Eventos. Eles entenderam e disseram que as portas estariam sempre abertas para mim. Ainda desfilei na Diretoria, no carnaval de 2014, a convite do Vice-presidente. Eu fui muito bem tratado, mas depois daquele Carnaval recebi um convite de uma coirmã e fui trabalhar em outra agremiação.

Portelamor:   O que te fez voltar para a Portela em 2019?
Sempre tive a certeza dentro de mim de que um dia voltaria para minha Escola do coração. Logo após o Carnaval de 2019, a Portela passou por eleições e fui procurado por um grupo de sócios pra que eu viesse candidato a Presidente. Sempre tive um ótimo relacionamento com o presidente Luiz Carlos Magalhães e o Vice-presidente Fabio pavão e com outros membros da diretoria. Então, conversamos algumas vezes e vimos que o melhor caminho era unir mais ainda a escola e daí fui convidado a integrar a Comissão de Carnaval e o Conselho Deliberativo da Portela.

Portelamor:  Novo cargo, novo desafio?
Na verdade, o cargo é o mesmo que já tive na escola há alguns anos atrás. O desafio é muito grande, pois a Portela vem chegando às campeãs nos últimos carnavais e a ideia é que continuemos com essa força para buscar fazer um grande carnaval e a Escola conquistar o título de campeã sozinha.

Portelamor:  Fale-nos de suas contribuições para a Portela como Diretor de Harmonia (2009 – 2011) e como Diretor de Carnaval (2012 e 2013).
Na verdade, passei a integrar a Comissão de Harmonia da Escola em 2006, quando o Presidente na época, depois do desastroso desfile de 2005, resolveu fazer mudanças radicais na escola. Não existia o cargo de Direção de Carnaval, então a Comissão de Harmonia era a que tocava todo o planejamento do desfile da escola. Tínhamos uma equipe muito boa e disciplinada e isso fez com que a Portela tivesse um dos principais chãos da Sapucaí. A dificuldade plástica que tivemos naquele período era compensada pelos quesitos de chão, como Samba-enredo, Bateria, Harmonia e Evolução, que ajudaram a colocar a escola nos desfiles das campeãs em 2008, 2009, 2012. Em 2012, o então Presidente resolveu que teria o cargo de Direção de Carnaval e assim trabalhamos muito com a Direção de Harmonia e fizemos um excelente desfile naquele ano. Tivemos o melhor samba do ano, inclusive com a conquista de vários prêmios. Só de Estandartes de Ouro foram cinco. Acredito que se tivéssemos mais investimentos no barracão teríamos disputado o título. Ficamos em sexto lugar e voltamos nas campeãs. Em 2013, tínhamos de novo um grande samba-enredo, que nos impulsionou a fazer um bom desfile. Porém, foi um ano bem difícil internamente na Escola, com a pré-eleição, e isso acabou atrapalhando o planejamento do carnaval.

Portelamor:  Em algum momento você pensou na dedicação exclusiva como profissional de Educação Física? 
A Educação Física sempre esteve presente na minha vida. Sempre fui atleta, desde a época da escola. Porém, nunca pensei me dedicar exclusivamente, pois o samba sempre esteve presente no meu DNA e até hoje a gente se esforça e consegue conciliá-lo com o trabalho.

Portelamor: Hoje você concilia outra profissão com a sua carreira no carnaval carioca?  Qual seria?
Além da Educação Física, também sou fisioterapeuta e estou me graduando em História. Trabalho com eventos e produção de shows em geral e sou supervisor de treinamentos de cavalos de corrida PSI (Puro Sangue Inglês), no Jockey Clube da Gávea. Uma vida agitada, mas eu gosto muito e o carnaval sempre junto comigo.

Portelamor:   Fale-nos um pouco de sua infância.
Graças a Deus tive uma infância maravilhosa. Aproveitei muito e sinto muitas saudades daquele tempo, das brincadeiras nas ruas. Jogar bola sempre foi meu passatempo preferido e quase virou profissão (risos). Se não fosse o samba (risos).

Entrevista concedida em  27/11/2019
Participaram deste trabalho: Jorge Anselmo (idealização, edição e revisão), Paulo Oliveira (edição e revisão), José Alves (Programação e apoio técnico) e André Camargo (apoio jornalístico, idealização e pesquisa).