Katsunori Tanaka

Katsunori Tanaka é uma daquelas figuras ímpares, que muito raramente surgem na história do samba. Hoje ele se diz aposentado, mas em nossa memória Tanaka continua ativo, e será sempre lembrado como alguém que foi importantíssimo para a história da Portela e da Velha Guarda. Para os mais jovens, Katsunori Tanaka, nosso compadre, como gosta de ser chamado, aconselha: pesquisem a interessante história da Portela. Na entrevista, esse apaixonado pelo samba carioca nos conta um pouco de sua vida hoje e dos tempos em que produziu 15 trabalhos no Brasil, 12 de samba e 3 de choro. A entrevista, respondida por escrito em português, conserva na íntegra as respostas de Tanaka, com pequenos ajustes de revisão. Katsunori Tanaka vive e trabalha no Japão. A ele, nossos sinceros agradecimentos, pelo carinho e pela disponibilidade. Salve o compadre Tanaka!

Portelamor: Em primeiro lugar, como está Katsunori Tanaka, hoje? Fale um pouco do seu dia a dia, de seu cotidiano.

Eu estou meio aposentado. Fundei a compania/selo chamado Office Sambinha/Rice Records, em 1998, mas já parei há 4 anos atrás. Agora, estou trabalhando numa universidade, uma vez por semana, e no restante do tempo estou em casa, escrevendo meus livros ou fazendo compilação de discos.

Portelamor: O que levou um cidadão japonês a se interessar pelo samba carioca? Como foi sua iniciação nesse estilo musical?

Minha primeira viagem fora do Japão foi em 1981. Estive no Brasil e na Argentina. Naquele tempo, já tinha comecado a colecionar os discos da música brasileira mas fiquei gostando mais quando estive aí no Brasil. Assisti a muitos shows e comprei muitos discos, especialmente gostei do samba e do choro.

Portelamor: E a língua portuguesa? Foi difícil aprendê-la?

Antes da primeira viagem, estudei com um professor aqui no Japão. Ele era nisei, nascido em São Paulo. A maneira de ensinar dele era muito diferente, pois não falava japonês comigo. Eu tinha que perguntar em português quando tivesse dúvida. Estudei com ele por quase 3 meses e mais tarde fui ao Brasil. Eu viajei pelo Brasil por cerca de 3 meses e já falava mais ou menos a língua. Eu era muito novo, mas aprendi muito rápido, também por causa da ajuda daquele primeiro professor.

Portelamor: O que você tem ouvido e/ou produzido ultimamente?

Eu ouço sempre muita coisa, mas não só música brasileira. Em minha casa tenho mais de 20.000 discos.  A música brasileira fica entre 10 e 15 % deste total. Ouço músicas de qualquer gênero, ou seja, de qualquer lugar do mundo. Ultimamente, não estou produzindo ou gravando coisas novas. Já faz quase 10 anos que não entro em estúdio. Estou fazendo discos de coletânea, montando as gravações do tempo dos álbuns em 78 rpm, o que é um trabalho muito gostoso.

Portelamor: Você uma vez disse que já havia muita gente produzindo samba. Em 1986, era justamente o fato de que a Velha Guarda da Portela estava há 16 anos sem gravar, após o primeiro álbum produzido por Paulinho da Viola, que o motivou a produzir um novo trabalho do grupo. O que você acredita que mudou de lá para cá no mundo do samba e no universo das produtoras musicais?

Naquela época, eu produzi os discos de samba porque não havia no mercado brasileiro disco de samba legais, bons discos eu quero dizer. Como vocês dizem, a Velha Guarda da Portela estava há 16 anos sem gravar, bem como os sambistas de outras escolas também. Conhecia-se pouco sambistas como Nelson Sargento ou Wilson Moreira, por exemplo. Se tivesse alguém que fizesse os discos deles, antes de mim, eu não os faria. Eu senti uma necessidade de colocar os discos deles no mercado, naquela época. Só por causa disso fizemos os primeiros discos.

Portelamor: Na imprensa, contabilizamos 12 álbuns produzidos por você no Brasil. Este número está correto?

Fiz 12 discos de samba. Também fiz 3 discos de choro, então, o total é de 15 obras.

Portelamor: Qual a sua formação musical? Você toca instrumentos, tem conhecimentos de teoria musical?

Quase nada. Toco violão, mas muito pouco. Aprendi muito gravando discos. O mais importante para mim é que eu ouço os discos, muito mais até do que os músicos e os arranjadores (ou produtores). Já tinha ouvido tanto disco, que eu sabia qual era o mais legal. Eu confiava em meu gosto. Depois, muita gente veio me pedir para produzir seus discos. Fiz no total quase 50 álbuns, ao longo de minha vida, por isso meu conhecimento musical.

Portelamor: Você poderia nos dar alguns detalhes sobre sua chegada ao Brasil e, mais especificamente, à Portela?

Já faz 11 anos que estive no Brasil pela última vez. Sinto tanta saudade que estou pensando em voltar à sua terra este ano. Mas não estou com vontade de ir na época do carnaval. Como estou ficando meio velhinho, acho que não aguento mais todo esse calor do verão daí.

Portelamor: Houve dificuldades em relação à língua, aos hábitos, ou mesmo em relação à desconfiança dos sambistas, em seus contatos iniciais com eles?

Não senti a dificuldades em relação à língua. Eles desconfiaram no começo, por conta de não me conhecerem. Só isso. Mas depois, estive com eles por tantos dias, tomando bastante cana, que aí a desconfiança já estava resolvida.

Portelamor: Quais as maiores dificuldades de se produzir um disco como o da Velha Guarda da Portela? E você acabou produzindo dois, certo?

Quanto ao primeiro disco que produzi da Velha Guarda da Portela (Doce recordação, 1986), a ideia era muito simples. Era só mostrar aquele pagode dos velhos. Naquele tempo, como você deve saber, a Velha Guarda ainda tinha Manacéia, Chico Santana e Alberto Lonato. O pagode deles na Portelinha era muito bonito. Tão maravilhoso, gostei tanto que fiz aquele disco. Finalmente, escolhi o repertório, junto com o Monarco, que conhecia todos os sambas da Portela. Ele é o meu professor e aprendi muito com ele. Quanto ao segundo disco (Homenagem a Paulo da Portela, 1990), trabalhei muito mais com o Monarco. Aquele disco era totalmente diferente do primeiro, pois a Velha Guarda gravou só os sambas do seu professor, Paulo da Portela. Na verdade, naquela época, os “alunos” já não se lembravam tanto dos sambas do professor. Quem se lembrava mais era o Monarco. O Alcides Malandro Histórico ainda estava vivo e eu fui à casa dele, com o Monarco, e o Alcides conseguiu lembrar de um samba de que ninguém mais se recordava e passou para a gente. O Manacéia lembrou de um samba que sua familia fez com o Paulo. Nós montamos o repertório assim, aos poucos. Demoramos mais de 1 ano, só para escolher o repertório. O mais importante é que os alunos se esforçaram para lembrar o professor. Deu trabalho, mas foi muito boa experiência para mim.

Portelamor: Além da Velha Guarda da Portela, outros compositores foram produzidos por você. Quais considera seus melhores trabalhos no Brasil e por quê? Qual o mais difícil de realizar?

Para mim, o primeiro da Velha Guarda é um dos melhores discos, até hoje. Ele é muito natural e muito quente, também. Acho que ouvi esse disco mais de 300 vezes. Claro que nao posso esquecer os 2 discos do Monarco, com os quais conseguimos ganhar prêmios. Agora, difícil mesmo não houve. Todos  são para mim os melhores.

Portelamor: A Portela foi campeã, depois de mais de três décadas sem ganhar um título. Como reagiu?

Fiquei sabendo disso no Japao. Foi uma maravilha.

Portelamor: Nós o consideramos um majestoso, pela generosidade e pelo empenho, por emprestar seu talento à difusão e consolidação da música portelense.

Eu gosto de azul e branco, e também gosto de verde e rosa (risos).

Portelamor: O que você levou para a vida pessoal e para a profissional em seu convívio com a Portela e com os portelenses?

Como já falei, pessoalmente aprendi muita coisa com o Monarco e o pessoal da Portela. Andamos juntos em Oswaldo Cruz e eles me apresentaram a muita gente e me passaram muita história. Fui com o Monarco à casa onde o Paulo da Portela morreu. Conheci o Alcides Malandro Histórico, que também é inesquecível. Foi ele quem se lembrava de toda a história da Portela e passou para o Monarco. Por isso, o Monarco canta, em um samba dele: “Se for falar da Portela, hoje não vou terminar”. Foi assim que consegui compreender como era a comunidade cultural do subúrbio do Rio de Janeiro, que o Paulo e seus companheiros construíram. Foi uma experiência muito boa para mim.

Portelamor: Se pudesse voltar no tempo, faria tudo de novo? O que mudaria, se é que mudaria?

Nunca pensei nisso, mas se não tivesse os discos deles no mercado, eu os faria de novo. Não mudaria nada.

Portelamor: Que mensagem você mandaria aos portelenses que estão nos lendo?

A história da Portela é muito interessante. Tão interessante que espero que os novos, aí no Brasil, continuem pesquisando.

Portelamor: Muito obrigado por sua disposição, seu tempo, sua gentileza. Vamos deixar este espaço final para que você diga o que tiver vontade de dizer.

Muito obrigado vocês. Não imaginava que ainda havia pessoas que se interessavam por meus trabalhos da antiga. A gente se vê ainda este ano. Vamos tomar umas.

Agradecimento especial
Ao Fábio Cazes, que nos confiou o contato de Katsunori Tanaka e possibilitou esta entrevista, nossos agradecimentos, com um abraço grande da Portelamor.