Eliane Faria

Eliane Regina Pereira de Faria é uma cantora e compositora carioca que tem dedicado sua carreira à Música Popular Brasileira, especialmente, ao samba. Portelense, tem cantado os grandes clássicos de compositores da Majestade do Samba e do samba, em geral. Neta do violinista César Faria, filha de Paulinho da Viola e da ex-passista do Sagueiro, Alcinéia Pereira, foi nomeada pelo lendário Nelson Sargento como “A filha do samba”. A Portelamor teve a honra de conversar com Eliane Faria, que nos contou um pouco de sua vida, sua carreira, suas paixões musicais e de seu trabalho como cantora e compositora.

Portelamor: Eliane Faria, em primeiro lugar, nosso bom dia e nosso muito obrigado por essa oportunidade. Nós gostaríamos inicialmente de saber um pouco de sua história pessoal. Conta para nós onde nasceu, como foi sua infância, sua relação com a música, com o samba.

Eliane: Eu nasci no Morro do Salgueiro, na Tijuca, Rio de Janeiro. Literalmente, meu umbigo ficou lá. Aos oito meses, eu fui morar com meus avós paternos porque minha mãe trabalhava, fazia plantões, não tinha com quem me deixar. Na verdade, eu sempre tive uma relação com o samba das Escolas de Samba, porque eu assistia aos desfiles com a minha bisavó Júlia, sempre, desde sempre, e também com as rodas de samba, que algumas vezes frequentei na Portela. Na casa dos meus avós ouvia muito mais o choro, vivi muito mais o choro, as rodas de choro do que as rodas de samba. Minha mãe saiu do Salgueiro quando eu tinha cinco anos de idade e na casa dela eu assistia às rodas de samba. Lá, eu conheci o Almir Guineto. Ele sempre recordava que quando me via brincava comigo, dizia que meu pai não cantava nada, me perguntava quem era ele, essas coisas. Eu sempre estive rodeada por aquela turma de samba, havia muita roda de samba lá no morro. Eu me lembro vagamente, porque era muito criança. Ainda morando no Morro do Salgueiro, lembro que meu pai fazia, naquela época, o Teatro Opinião, e eu não dormia enquanto ele não chegava. Minha mãe conseguiu com o cunhado dela um rádio de pilha e colocava esse rádio para eu ouvir a noite inteira, até meu pai chegar, e quando ele chegava, me colocava em seu peito e eu dormia. Desde sempre tive uma relação muito boa com a música, e o que foi determinante para a minha formação, até hoje, porque eu ainda estou em formação, é o fato de que eu não tive nenhum tipo de pressão para ouvir somente choro e samba. Passei por várias fases, como qualquer outra pessoa que não vem de uma família musical. Em casa escutava o choro, o samba da antiga, da Rádio Nacional, até os sambas dos anos 1960, 1970, mas, conforme fui crescendo, tive a época do Rock’n Roll, de Suely Campello; e depois, foram as músicas americanas, que imperavam no país na época, nas rádios. Eu escutei de tudo, Donna Summer, Roberta Flack, Jackson Five, Michael Jackson, Al Jarreau. Quando eu tinha mais ou menos uns 12, 13 anos, descobri o Freddy Cole (irmão de Nat King Cole, também cantor e pianista) e fiquei apaixonada, e depois, o Nat King Cole. Através deles, eu fui descobrindo muitos outros, que fui buscar no jazz norte-americano. Aos 13, 14 anos, comecei a ouvir João Gilberto na casa do meu pai, aonde eu ia muito, porque eu tomava conta dos meus irmãos. Foi outra paixão, fiquei encantada. Uma voz pequena, muito afinada, precisa, e com um violão muito diferente daquilo que eu ouvia nos discos e em casa, ao vivo. Eu me apaixonei, foi um marco. Eu tive a época do “Clube da Esquina”, aquela turma toda me encantava, como é até hoje. Eu acho que os anos 1970, 1980 foram pontos culminantes da música brasileira, não só do samba, como da música nordestina, especialmente a baiana, a do Norte, obras muito bem feitas, tanto em letra como melodia. Acho que dos anos 1990 para cá houve uma queda, mas isso não quer dizer que não tenham coisas boas, têm sim, mas eu acho que aqueles artistas dos anos 70 e 80 pensavam assim: ‘já que nossa música vai acabar, vamos fazer o melhor”. Hoje, pouco se ouve música de qualidade nas rádios. Essa foi então minha trajetória. Eu fui ter mais acesso ao samba, à roda de samba, aos 18 anos. Eu me casei, voltei a frequentar a Portela, depois voltei a assistir os desfiles. O samba nunca saiu da minha vida, sempre o escutei, mas eu tive contato com um universo muito amplo de músicas e tive um conhecimento musical em nível internacional: música francesa, italiana, inglesa. Isso tudo para mim foi essencial para ser quem eu sou hoje. Quanto ao samba, minha relação inicial, foi muito mais com o choro, como eu disse. Agora, o meu tio Chico, irmão do meu pai, comprava muitos discos de samba e de vários sambistas. Foi assim que eu escutei todos aqueles sambas. A música sempre esteve em mim, desde pequenininha eu cantava e dançava. Meu pai pedia para eu sambar para meu padrinho, pedia para eu me apresentar em casa. Sempre cantei e escutei música, desde sempre. Essa é a minha maior relação com a música. Tudo era música, até para memorizar questões de prova, eu colocava melodia porque para mim era mais fácil. É isso, a música sempre esteve comigo.

Portelamor: Todo mundo acha natural que alguém de uma família de determinada profissão abrace o ofício. Não é uma regra, mas com você foi verdade. Como se deu essa paixão pela música?

Eliane: Muitas vezes eu me perguntei o que eu queria ser, e na verdade eu queria ser atriz, porque eu gosto muito do palco, da interpretação, mas minha família nunca gostou muito dessa ideia. Minha avó não deixou e foi assim, porque eu precisava de uma autorização. Fui convidada a participar de algumas coisas na televisão, também não me deixaram. Assim foi com o piano. A Sonia Maria Vieira queria me dar aulas de piano clássico. Ela é uma grande concertista, mundialmente famosa. A desculpa de minha avó foi que não tinha quem me levasse. A Sonia dizia que eu tinha mão de pianista, que levava jeito, mas minha avó não concordou. E lá em casa quem mandava era ela, sempre foi assim. Eu fazia algumas peças infantis lá em Botafogo, onde eu morava, e depois tentei fazer aulas de teatro no Tablado, mas minha avó novamente não deixou.

Portelamor: Como foi o início de sua trajetória como cantora?

Eliane: Casei cedo e quando eu me separei, muito nova, com 25 anos, fui fazer aula com Demétrio Nicolau, no Centro Musical Antonio Adolfo, no Leblon. Mas era aula mais para eu saber como era cantar, que universo era aquele. Fiquei lá durante 3 anos. Um dia fui convidada para fazer um projeto chamado “A filha canta o pai”. Eu fiz esse projeto, dirigido pelo Túlio Feliciano e produzido pelo Ney Barbosa. Para mim, a música me escolheu, eu não escolhi a música. Quando vi, eu já estava trabalhando, ganhando dinheiro e vivendo da música. Eu não sei explicar muito bem como isso aconteceu. Como o palco sempre me fascinou, acho que eu dei continuidade, muito por causa do palco. Hoje sou mais tranquila em estúdio, antes não era.

Portelamor: Qual sua primeira gravação, seu primeiro show? Como foram aqueles tempos?

Eliane: Como disse anteriormente, fui convidada para o projeto “A filha canta o pai”. Minha primeira apresentação foi em uma casa chamada Casa de Cultura Fernando Pinto, no Estácio, que não existe mais. Foi em fevereiro de 1994. Foi uma emoção. Meu avô (César Faria) me acompanhando, meu pai apareceu com um pandeiro enrolado em um jornal, cantou comigo. Foi o primeiro show da minha vida, pois até então eu fazia parte de um coral teatral, com Demétrio. Nós saímos do Antônio Adolfo, fomos para uma casa que alugamos na Gávea, e montamos o grupo vocal feminino “Maçã na Camisola”. Fiquei no grupo durante 3 anos, depois saí. Um mês depois fui chamada para participar do projeto “A filha canta o pai”. Por volta de 1996, 1997, gravei um disco com vários filhos de cantores e cantoras chamado “Tal pai tal filho”, produzido pelo Paulinho Tapajós. Minha primeira gravação foi “Arvoredo” (Paulinho da Viola).* Meu pai até veio, botou uma “janelinha” lá na música e essa foi a minha primeira gravação solo registrada (eu já havia feito coro antes, para a família Roitman**). Foram tempos muito importantes, de muita coisa bacana que eu fiz: participei de muitos shows, havia mais casas noturnas, teatros, então a gente fazia muita coisa. Aprendi muito. E uma das coisas mais importantes para mim foi trabalhar com as cantoras “da antiga”, como Zezé Gonzaga, Áurea Martins, Ellen de Lima. Fui aprendendo. Naquela época existia camarim, então a gente se preparava, se maquiava, se produzia para entrar no palco. Isso foi uma mudança enorme porque hoje mal se tem lugar para trabalhar. Mas, foram momentos mágicos, maravilhosos e de muita importância e aprendizado para mim.

Portelamor: E como tem sido chegar a mais de 25 anos de carreira? Quais as maiores dificuldades e quais os grandes momentos de felicidade que você pode destacar para a gente?

Eliane: A carreira do artista é mágica. São os altos e baixos, teu brilho e o que é ofuscado. Mas é tudo muito prazeroso, o artista gosta dessa grande emoção. Eu tive momentos maravilhosos. Cantar como intérprete na Escola de Samba Paraíso Tuiuti foi um momento mágico; trabalhar com uma orquestra sinfônica; poder homenagear meu pai; cantar com a Velha Guarda da Portela, na quadra da escola, em 1995, foram momentos maravilhosos para mim. Poder estar no palco com Áurea Martins, Délcio Carvalho, meu pai Nelson Sargento (Nelson Mattos, baluarte da Escola de Samba Mangueira), que eu amo de paixão, Wilson Moreira, Jamelão, Dona Ivone Lara, Martinho da Vila, Djavan (cantar com Djavan, tê-lo como meu padrinho em um projeto, cantar com ele e meu pai no mesmo palco, os dois ao mesmo tempo, meus dois ídolos), momentos muito bons. Agora, há muitos momentos difíceis. Quando não se tem trabalho. Você junta um dinheiro, mas não dá para terminar aquela etapa e você tem que se virar para pagar suas contas. Mas eu prefiro lembrar das coisas boas, mesmo sendo muito difíceis, desafiadoras, são também enriquecedoras. Cantar para 10 pessoas ou para 20 mil pessoas ou mais, como já cantei, faço da mesma forma, com o mesmo amor.

Portelamor: Sua pesquisa musical é muito variada, vai desde o samba de agora às canções de Dolores Duran, Antônio Maria e outros importantes compositores. Como seleciona este repertório?

Eliane: Eu canto o que eu gosto, o que eu gosto de ouvir. Nem tudo que eu gosto de ouvir eu acho que é para minha voz, para o meu repertório. Então, eu sigo um caminho: canto samba, bossa-nova (me sinto uma sambista que canta bossa-nova), algumas coisas da MPB. Eu aprendi, com o tempo, que nem tudo o que é bonito e a gente gosta é para nossa voz. Ainda estou aprendendo isso. Às vezes eu me escuto e vejo que não está legal, outras coisas eu penso que não deveriam ser daquele jeito. Então, vou reciclando. A maioria das coisas que canto eu ouvi na minha infância, na minha adolescência ou escuto até hoje em uma roda de samba, de choro. Pesquiso também por autores, às vezes por um tema, coloco coisas que eu conheço e coisas desconhecidas, e por aí vou.

Portelamor: Nós da Portelamor consideramos você uma menestrel, uma andarilha, uma batalhadora do samba. Podemos chamá-la assim? Como você se vê neste universo artístico?

Eliane: me aperfeiçoar, melhorar muito, mas estou sempre tentando, na medida em que vou aprendendo, evoluindo, sempre com muito cuidado com aquilo que eu canto, como eu canto. Gosto muito de cantar o que o compositor escreveu e não inventar melodia, outra linguagem. Acho que se teve autor ou autores, eu devo respeitar isso. E mostro todo o trabalho pelo qual eu primei, desde quando eu comecei. Eu gosto de falar dos antigos, das pessoas que fizeram a música acontecer para hoje estarmos aqui e gosto também de interpretar compositores de minha geração, alguns que gosto muito de cantar e vou mostrando também um pouco daquilo que faço, minhas composições, sozinha ou em parceria. Acredito que sou uma artista que gosta do que faz.

Portelamor:  A Portela é um manancial de grandes compositores, compositoras, intérpretes. Como você vê a atuação das mulheres no cenário portelense de hoje?

Eliane: Cada dia tem mais mulheres no cenário da música, do samba e na Portela. Eu lembro que quando comecei, tirando as Pastoras, quase não havia cantoras. Nem me lembro se havia outras pessoas colocando sambas nas escolas. De um tempo para cá, isso se fortaleceu e vem se fortalecendo, com os filhos e filhas dos compositores,  com as passistas. A gente tem hoje uma rainha de bateria muito atuante na Portela, fazendo trabalhos importantes, inclusive na área cultural; de novo, nossas Pastoras, que estão sempre presentes, cantando, cozinhando ou fazendo as rodas, muito atuantes. Cada vez mais a tendência é essa. As mulheres sempre participaram, desde do início da história do samba. Hoje a gente vê um cenário, não só com as baianas, porta-bandeiras, passistas, rainhas de bateria, mas também com mulheres se manifestando na composição, montando rodas de samba, documentários, fazendo todo um processo para movimentar a escola, o que é bacana. A Portela tem muitos compositores de qualidade, em quantidade. Essa é a história da Portela. Hoje, novos talentos da escola, que estão vindo, no samba-enredo, no samba de quadra, valorizam muito essa história. Algo que acho importante e sempre falei na escola, desde 1995, é a Ala das Crianças. Quando surgiu a “Filhos da Águia” (escola de samba mirim da Portela), isso foi primordial para a escola. Criança aprendendo percussão, tendo educação, aprendendo a respeitar o outro, aprendendo a bailar, tudo isso é fundamental para quando forem para a escola mãe, pois as crianças já vêm com uma bagagem, conhecimento, respeito. Para a história de uma agremiação, a Portela, no caso, é de grande importância. Entrevistei três adolescentes da “Filhos da Águia” e fiquei encantada com o respeito deles ao falar dos baluartes. Nossa, até me emociono. Tem que ser assim. Assim se constrói uma grande agremiação.

Portelamor: A história das mulheres no samba ainda não foi devidamente contada. Um país de memória fraca é um país que esquece a contribuição fundamental dessas guerreiras para a formação cultural do Brasil. No caso do samba, você vê dessa maneira?

Eliane: Tudo é história. Quando você fala ou omite, há história, mesmo na omissão. Vejo hoje as mulheres muito mais ativas na mídia, mas eu encaro assim, há muitos anos, 30 anos atrás, eu dizia que as mulheres iriam dominar o mundo (homens, acordem!). Você vê hoje concursos, as mulheres na frente, na maioria das vezes. Estamos conquistando o mercado de trabalho e não é só por ser mulher, é porque você é mulher e é competente, então tem que ocupar os lugares. Eu vejo hoje grandes mães, mulheres, profissionais que chegaram para mostrar que fazem e fazem bem. No universo do samba, a mesma coisa, há muitas mulheres trabalhando, compondo, cantando. Fico muito feliz por ter mulheres compondo muito bem, cantando e interpretando muito bem, isso é o que me interessa. Se serão 5, 50, 500 ou 5000, acho que o mais importante é a qualidade dessas grandes profissionais, competentes, que mostram a que vieram. Gosto das mulheres que cantam com personalidade, que você identifica a voz e diz “essa voz é da beltrana”, “olha esse som que essa mulher fez”. E o respeito que elas têm pelo samba, pelas pessoas que estão aí e já fizeram a sua história, e depois cada uma delas vai fazer a sua. Espero que mais e mais mulheres continuem fazendo bastante, mas bons sambas, com suas belas vozes e interpretações, nunca se esquecendo de quem fez a história.

Portelamor: E na Portela, quais as mulheres que você destacaria como fundamentais para a história da escola, do carnaval e do samba?

Eliane: Não podemos deixar de fala na Dodô (Tia Dodô, Maria das Dores Rodrigues, campeã como Porta-Bandeira da Portela, em 1935, tendo participado de 21 campeonatos da escola, 11 como Primeira Porta-Bandeira). Clara Nunes fez uma história na Portela. A Vilma (Vilma Victorino do Nascimento, Porta-Bandeira lendária da Portela), Surica, que hoje leva o nome da Portela a vários lugares. Dona Vicentina, Tia Doca, pessoas que fizeram sua história dentro da escola.

Portelamor: Sua mãe era passista do Salgueiro, mas a Portela te conquistou. Entre o pai portelense e a mãe passista do Salgueiro, como foi a sedução da Portela?

Eliane: Paixão não se escolhe, não é? Minha mãe veio de uma escola antes do Salgueiro, depois foi pro Salgueiro, sempre falou dessa escola pra mim. Mas nenhum dos dois, nem meu pai nem minha mãe, me influenciaram para gostar de suas escolas. Meu pai que às vezes falava que eu nasci no Salgueiro, então tinha que ser salgueirense. Meu tio era o Anescarzinho do Salgueiro (Anescar Pereira Filho) me levou um ano na avenida. Eu achava lindo aquilo tudo. Foi um ano em que o Salgueiro nem passou bem, as baianas caíram, as roupas eram muito pesadas, mas o Salgueiro veio belíssimo. Mas, aquela emoção de até você chorar, não sei explicar. Portela sempre desfilou tarde, minha bisavó me acordava para eu assistir. Lembro disso, desde sempre, assistindo a Portela com minha bisavó Júlia. Alguns anos eu fui ver a Portela, cheguei a ir à Sapucaí quando se montava e desmontava, eu era muito pequena, isso em 1972, eu me lembro de minha avó me levando. Eu ficava procurando meu pai primeiro, a águia e a Velha Guarda. Amava as passistas, um dos meus sonhos era ser passista da Portela (risos). Na época era magrinha, até dava (risos). Eu me encantei muito com a Porta-Bandeira. E eu assisti a Vilma, achava aquele bailar muito bonito, elegante, aquele cortejo e o cuidado do Mestre-Sala em proteger aquela bandeira, o pavilhão da escola. Eu achava tudo muito lindo. Não sei explicar. Não tem explicação. Amo a Portela desde sempre.

Portelamor: Eliane, você tem se lançado na arte de compor samba-enredo. Como tem sido essa experiência? Ainda é um universo muito masculino, para não dizer machista?

Eliane: Eu comecei a fazer samba-enredo por conta do Wander Timbalada, que nem era da escola, e ele me falou para fazer samba com ele, para a Portela. Nunca foi um atrativo, algo que planejei, ser compositora da Portela. E no primeiro ano em que eu participei, a gente foi muito bem. Nós fomos à final e eu não sei por que a gente não ganhou com aquele samba. O samba era bonito, modéstia à parte, era cantado por todo mundo na quadra. Eu ainda vejo uma certa restrição em relação às compositoras, mas também vejo que a gente tem que compor, colocar o samba lá e só pode ganhar um samba. Para mim, foi um desafio como compositora, porque é muito difícil fazer samba-enredo hoje, com várias regras a seguir (Carro 1, Carro 2, Carro 3, tem que estar no enredo, que às vezes dá uma volta enorme para dizer alguma coisa, às vezes não é tão objetivo). Parceria, também. Achar uma parceria legal, porque samba-enredo se faz com outras pessoas, pelo menos 2, 3, 4 ou mais pessoas. Às vezes elas não pensam igual a você, não entendem o que você quer, ou entendem e não aceitam, então, é parceria, você tem que seguir o que a maioria quer. Mas, mesmo que fosse só você, pegar um enredo, destrinchar e fazer, acho difícil, mas, para mim há a Eliane antes de compor para a Portela e depois, é óbvio. Eu vou tentando. É um grande estudo. Tenho uma forma de compor que é diferente dos compositores de samba-enredo, que geralmente já vêm com letra e melodia e vão destrinchando. Já eu, gosto de ler, saber o que tem na descrição toda. Eu leio e vou escrevendo, à vezes boto a melodia depois. Tive que mudar isso, já ir escrevendo e botando a melodia, porque todos com quem eu trabalhei, compus, fazem assim. Muitas vezes coloco muitas ideias, digo o que não acho legal, o que tem que mudar. Mas, a gente está ai. Quando me der vontade, vou lá e faço.

Portelamor: Você acha que o mundo do samba valoriza sua história, sua memória, suas raízes? E quanto aos baluartes, acha que são devidamente valorizados?

Eliane: Tem gente cantando sambas antigos, uma minoria, mas tem, e fazendo muito bem, falando sobre os compositores, não só aqueles ligados a escolas de samba, mas também dos anos 20, 30, 40, 50. Acho que deveria ter mais. Nesse movimento samba e pagode, quando termina um e começa o outro, o que é e o que não é, acho que quando se debate só isso, se perde a finalidade do próprio samba. Sempre digo que Paulo da Portela, Tia Ciata (Hilária Batista de Almeida, uma das figuras mais influentes no nascimento do samba carioca), que brigaram tanto por uma elegância no vestir, no falar, no conteúdo. Paulo andou pela Zona Sul, tinha amizade com Pixinguinha, acho que ele iria se espantar se visse o que acontece hoje. Mas, cada um faz a sua história. Eu tento fazer a minha, muito ligada a meu trabalho, a minhas composições e àquelas pessoas que estão esquecidas. Às vezes a gente vê um baluarte esquecido, até maltratado, desprezado. Tento ser uma voz, mais uma, para essas pessoas. Infelizmente, não há mais adeptos, mais vozes na mídia para falar dessas pessoas. Mas, já melhoramos, avançamos bastante e espero que avancemos mais ainda, que a grande mídia toque, divulgue, fale dessas pessoas, as exalte. Que a grande massa brasileira possa ter acesso a essas pessoas. É mais fácil lá fora terem acesso e conhecerem bem essas pessoas do que aqui em meu próprio país. Eu que viajo, vejo isso. Da maneira que eu posso, na minha humilde contribuição, eu levo essas pessoas aonde eu for.

Portelamor: Eliane, você ganhou de Nélson Sargento a qualificação elogiosa de "A filha do samba". Fale um pouco sobre isso.

Eliane: Nelson Sargento! No aniversário de um ano de minha filha caçula, Amanda, estava ele, Noca (Osvaldo Alves Pereira, o Noca da Portela), David do Pandeiro (David dos Santos), e Nelson chegou pro Noca e disse: Essa é a verdadeira “filha do samba”. Não só pelo pai, mas também pelo avô, pelo tio, pela mãe, pelo padrinho. Aí ficou, a “filha do samba”. Foi tão generoso! Eu sou apaixonada pelo Nelson, chamo ele de pai.

Portelamor: O que você diria a uma cantora, compositora que está começando no mundo do samba?

Eliane: Cante o que você gosta, seja o que você é. Não imite. A gente tem referências e muitas vezes a gente reverencia essas pessoas, mas seja você mesma, sempre.

Portelamor: Conte-nos um pouco de sua experiência com as Lives neste ano pandêmico.

Eliane: Quando a pandemia começou e as pessoas começaram a se isolar em casa, eu a princípio fiquei apavorada com a falta de trabalho, não ter dinheiro para pagar as contas. Isso me desesperou. As pessoa me ligavam, amigos músicos, amigos, cantores, eu achei que iria pirar. Eu comecei a fazer as lives, que na verdade não eram lives, eram gravações que eu fazia com o Victor (Victor Neto, instrumentista). Gravava com ele uma música, falava um pouquinho sobre ela, da nossa vivência e colocava a live no ar. Depois, eu comecei com o bate-papo, produzi uma música (falei em algum lugar sobre isso), “Espírito Santo da favela”, de que participaram alguns cantores e compositores de samba de várias partes do país. Foi com eles que comecei as entrevistas. E não parei mais. Eu já fazia isso há dez anos atrás, e quero continuar fazendo, porque está sendo tão gratificante, prazeroso, adoro fazer, até mais do que na rádio. Eu me descobri, é uma outra Eliane, porque você falar com uma outra pessoa que está em outro estado, outra região que não é a sua, pode acabar com alguma coisa se perdendo, no cara a cara é melhor, mas tenho tido respostas muito boas dos que assistem e dos entrevistados. Tenho aprendido tanto! Fico feliz quando as pessoas dizem que não sabiam sobre o tema, não conheciam aquelas pessoas, elogiam o tema, dizem que não tinham atinado para aquilo. É maravilhoso, toda quinta-feira, às 21hs, no meu canal***, bater papo, com ou sem música, com essas pessoas do universo do samba e da arte.

Portelamor: Você já tem planos para quando a pandemia finalmente for controlada? Pode nos adiantar algum? E um novo trabalho em álbum? Estamos sentindo falta. Há perspectivas de trabalho novo?

Eliane: Tenho muita vontade de fazer um disco sobre meu pai, que ainda não fiz. Pelo tempo e pelo trabalho que faço esses anos todos, acho que é merecido. Tenho muita vontade, já falei em outras entrevistas, de fazer um disco de compositores portelenses, já fiz os shows e gostaria de passar isso para um disco. E fazer meus shows, viajar, voltar à vida normal, vamos ver. É o que a gente pretende. E o disco autoral, essa também é prioridade. São essas três prioridades. Mas, tudo depende de patrocinadores, não tenho essa verba para fazer um trabalho como esse. Espero que eu viva um pouquinho para poder fazer esses três projetos e mostrar para as pessoas.

Portelamor: Agora, deixaremos você bem à vontade para encerrar essa entrevista e desde já agradecemos pela gentileza, pela disponibilidade. Um abraço azul e branco dos portelamorenses. Saúde!

Eliane: Eu é que agradeço pela oportunidade de falar um pouco de mim, agradeço poder estar aqui, o texto que vocês fizeram para mim, me emocionei muito, pelo tanto do carinho e reconhecimento de vocês. Como vocês me conhecem. Obrigado Paulo Oliveira, pelo texto. Que daqui para frente eu possa mostrar cada vez mais o meu trabalho, simples, mas sempre reverenciando minha escola, meus antecessores, meu pai, minha mãe, meus avós, que tanto foram importantes, assim como foi minha bisavó, para eu ser quem eu sou. Quero agradecer a vocês e à minha família por poder estar aqui hoje, dando essa entrevista e falando um pouquinho de mim. Obrigada, viu?

* Ouça “Arvoredo” (Paulinho da Viola), primeira canção gravada por Eliane Faria, em dueto com Paulinho da Viola: https://www.youtube.com/watch?v=GuYzv3iQy_I

** Família Roitman foi um grupo formado por Léo Tomassini (voz), Felipe Trotta (violão) e Di Lutgardes (bateria) no Rio de Janeiro na década de 1990. Em 1995, lançou seu primeiro CD, O samba nas regras da arte.

*** Para ver e rever as lives de Eliane Faria, ir em: https://www.youtube.com/channel/UC-isIF41-zipbRIvtC0MQIA.