Vilma Nascimento

Vilma Victorino do Nascimento (Rio de Janeiro, 01/06/1938 –) ou, simplesmente, Vilma Nascimento, é carioca da gema suburbana de Madureira. Estrela maior da constelação de Porta-Bandeiras, Vilma é um mito do carnaval carioca. Inovou não somente a arte da dança das Porta-Bandeiras, mas foi também pioneira em diversas frentes. Em 1957, estreava na Portela como campeã, sendo tetracampeã, nos carnavais de 1958, 1959 e 1960. Por sua trajetória ímpar, foi chamada pelo jornalista Valdinar Ranulfo, de Cisne da Passarela. Recebeu em 2018 uma “Moção de Aplausos, Louvor e Congratulações” (Moção 1422/2018) pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ). Vilma foi 5 vezes campeã do Estandarte de Ouro, três pela Portela (1977, 1978 e 1979), um pela Escola de Samba Ilha do Governador (1982, Destaque Feminino) e um pela Tradição (1989). Em 2016, foi eleita Cidadã Samba. Vilma é filha de dona Martha Lacerda Victorio e do Sr. Filoginio da Silva Victorio; esposa de Osmar José do Nascimento (Rio de Janeiro, 03/02/1933 – 21/08/2005); mãe de Deise do Nascimento Lubão, Dilma do Nascimento Calixto e da Porta-Bandeira campeã pela Portela (2017), Danielle do Nascimento; e avó de Cleyber, Cleyton, Bruno, Camyla, Bernard e Daniel; além dos seis bisnetos, Cleysson, Clarice, Vitória, Lorenzo, Valentina, Pérola. Nora do lendário Natalino José do Nascimento (Queluz, SP, 31/07/1905 – Rio de Janeiro, 05/04/1975), o Natal da Portela, Vilma imortalizou seu nome e sua arte na história do carnaval e da cultura brasileira.

Esta entrevista concedida ao Grupo Portelamor foi possível graças à gentileza e à colaboração de Bernard Nascimento, neto de Vilma, a quem, de público, agradecemos imensamente pela oportunidade.

Portelamor: A senhora poderia nos falar um pouco de sua infância, seus pais, suas origens?

Vilma: Minha infância foi ótima. Eu posso dizer que eu tive infância. Eu nasci na Rua Dona Clara (na Capitão Macieira, mas fui criada na Dona Clara). Fui com dois anos para a Dona Clara. Então, ali, eu brinquei muito. Ali eu brincava de carniça, eu pulava corda, joguei bola, joguei vôlei no campo do Brasil Novo.* No calor, as famílias iam todas para a rua, podia-se ficar na rua, brincar. Nossos pais ficavam olhando, tomando conta. Ali eu comecei a desfilar no Bloco Unidos de Dona Clara e, quando eu vi, já estava com o estandarte na mão. Dali, fui para a União de Vaz Lobo, mas não podia ainda ser a primeira Porta-Bandeira porque eu tinha pouca idade, 9 anos. Fiquei lá por uns três anos, por aí, depois passei a carregar a bandeira da União de Vaz Lobo, como primeira Porta-Bandeira. Meus pais foram muito bons para mim. Minha mão me fantasiava todo ano, desde meus dois anos, cada ano com uma fantasia e meu pai me levava para tirar retrato. Aquilo foi me incentivando para o carnaval. Minha mãe me levava para os coretos em Madureira, para os bailes infantis, aquilo foi muito bom para mim, me incentivou muito a ser a Porta-Bandeira que fui. O meu pai se vestia, naquela época, de baiana, fazia decoração na cabeça, e minha mãe era Porta-Estandarte de Rancho. E ela também era baiana da União de Vaz Lobo. Meu pai se chamava Filoginio (riso) e minha mãe, Martha.

Portelamor: Seu encontro com Natal é um capítulo curioso de sua história. Poderia falar um pouco dessa história e/ou de algo que o público não saiba ainda?

Vilma: Meu encontro com Natal foi a coisa mais bonita do meu período de Porta-Bandeira e como pessoa. Eu encontrei com Natal no Night and Day, o que todo mundo já sabe**. Ele foi apanhar a bandeira da Portela, que tinham roubado e alugado para o Carlos Machado. Então, quando Natal me viu dançando, parou para ver e não apanhou a bandeira. Quando eu acabei de dançar, ele me seguiu e perguntou quem havia me dado a bandeira para eu dançar. Eu disse para ele, “Fala com o Carlos Machado”. Ele me disse, “Então você vai sair na Portela”, e eu falei que não: “Eu saio na União de Vaz Lobo”. Deixei ele falando sozinho e fui tirar minha roupa. Depois de dois anos, por um acaso, por uma coincidência, que foi muito boa, eu conheci o Mazinho (Osmar José do Nascimento), filho mais velho dele, e comecei a namorar com ele. Com quinze dias, Mazinho me levou em sua casa para ver o Natal e conhecer a família dele. Quando eu cheguei lá, lembrei de que conhecia aquele homem e ele também lembrava de mim. E lembramos que era do Night and Day. Ele disse que agora eu iria sair na Portela, mas eu disse não, ainda saio na União de Vaz Lobo. Fiquei frequentando a Portela desde 1953, 1954, até 1957. Aí, em 57 ele disse: “Agora, nem Mazinho te manda e nem você se manda, quem manda sou eu. Você vai sair na Portela”. Então, passei a sair pela Portela. Foi assim que eu encontrei Natal, que foi a coisa mais maravilhosa que aconteceu na minha vida.

Portelamor: A senhora teve dois grandes parceiros Mestres-salas na Portela, o Sr. Aryi da Liteira e Benício, seu parceiro mais constante, e, mais tarde, Julinho, quando a senhora já estava encerrando sua carreira. Com Benício formaram uma dupla de ouro e com seu Ary, dançaram um tetracampeonato. Como era dançar com cada um desses parceiros?

Vilma: Cada um foi completamente diferente, mesmo. Cada um teve a sua época. O Ary (Ary Cavalcante Cruz) foi logo o primeiro, então, foi uma experiência maravilhosa. A gente se entendia pelo olhar, a gente ria até de nossos erros. Nós éramos uma casal muito bom, perfeito. Ele sabia cortejar a Porta-Bandeira e a Porta-Bandeira (eu) sabia obedecer ao Ary. O Benício (Benício da Rocha) foi uma coisa maravilhosa também porque eu já dançava com ele no Night and Day. Ele era meu primo de sangue. A gente tinha aquele entrosamento perfeito. Ele era gentil com uma Porta-Bandeira, era elegante, sabia cortejar a Porta-Bandeira. E o Julinho era meu afilhado de batismo e o segundo Mestre-Sala da Tradição. Eu botei ele para dançar comigo quando o Mestre-Sala que dançava comigo não quis mais. O Nézio não queria, eu insisti e disse que não sairia sem ele. Nézio me perguntou se eu garantia e eu disse que sim, garanto. Julinho foi uma perfeição. Dali, ele foi crescendo comigo, eu orientando ele em certas coisas, porque ele errava. No primeiro ano, ele escorregou, caiu, e eu gritava para ele: “Levanta a cabeça, roda”. Aquilo foi uma maravilha: ele levantou a cabeça, voltou a dançar. Ele cortejava uma Porta-Bandeira muito bem. Hoje em dia, vocês estão vendo um dos melhores Mestres-Salas que há na avenida.  Depois, eu parei de dançar, ele fez dupla com Danielle e ficou um casal perfeito. Hoje ele é esse Mestre-Sala perfeito.

Portelamor: Foram muitas as inovações que a senhora inseriu no desfile. Mencione quais foram e de que forma sua inovação contribuiu para a evolução da dança.

Vilma: Foram muitas as inovações. Uma delas foi a anágua, que antes era engomada e eu coloquei uma anágua de aço. A cor de peruca, que era de sisal, e eu passei a usar de cabelo. Uma novidade também era que eu usava o meu próprio cabelo, porque eu tinha um cabelo grande, que eu pintava, fazia penteados. Inovei também no talabarte, na bandeira. Hoje ainda se usa muito essa franja, que antes era de seda, embolava, agarrava na roupa, agora essas que se usam são inovações minhas. E por aí afora. Inclusive, eu e meu marido Mazinho inovamos a passarela do samba, que colocamos fixa. Todo ano, armava e desarmava, tinha ferro caindo pelo chão, pela arquibancada. Depois, ficou uma coisa fixa, bonita, e hoje em dia se vê esse desfile maravilhoso.

Portelamor: Como é ter uma família de mulheres dedicadas à dança das Porta-Bandeiras, já na quarta geração de Porta-Bandeiras? Como se dá essa relação? Quais os conselhos a senhora dá a elas para seguirem como Porta-Bandeira?

Vilma: Eu hoje estou feliz. Quando eu deixei a dança, não queria que fossem Porta-Bandeiras porque a dança estava mudando muito e a vida mesmo, os dirigentes mudando e o pensamento mudando. Não davam importância à Porta-Bandeira e ao Mestre-Sala, então, não queria que seguissem, para não sofrerem, conforme muitas sofrem. Mas, de repente, a Danielle quis ser. Eu tinha meu projeto na Tradição, mas eu não coloquei a Danielle. Jorginho Paes Leme foi quem botou a Danielle lá, foi orientando ela, mas eu nunca orientei ela. Depois que ela passou a dançar com Julinho, é que eu fui corrigir a Danielle, os erros dela. Hoje em dia tem a Camyla, que foi do meu projeto. Nós ensinamos Camyla, Julinho, Ney, Bruno, Danielle, todos. Camyla veio da minha escolinha. Hoje em dia tem a minha “picurruxa”, Clarice, minha bisneta, que também quis. Ela tentou ser musa, ser isso, ser aquilo, mas quis ser mesmo Porta-Bandeira. Foi por ela mesma, ela gosta, porque Porta-Bandeira, para enfrentar isso tudo (avenida, bandeira, os comentários, essas coisas todas) tem que “ter saco”. E tem que gostar. E ela gosta. Está seguindo a carreira dela, entrou para a Escolinha do Galo, agora está na Escolinha da Viviane e da Squel. Ela está muito bem, porque está fazendo o que gosta, e isso é o principal. Não é fazer porque quer ganhar dinheiro, não, mas porque gosta mesmo.

Portelamor: Durante a pandemia, a senhora tem sido um exemplo de energia, alegria, vitalidade. Como fez para seguir em frente diante dessa tragédia?

Vilma: De fato, está difícil mesmo. Mas, eu tenho ajuda de minha família. É isso que está me dando força. Meu neto Bernard, Deise, que me pega para dançar, me obriga a andar aqui no condomínio, porque vai fazer um ano que estou na casa dele. Ele me obriga a andar e às vezes não quero, mas eles me obrigam. Então, é isso que está me dando força e energia. E a minha vontade também, pois eu tenho uma vontade louca de avenida.

Portelamor:  Se pudesse voltar no tempo, faria algo diferente? Tem arrependimento de algo?

Vilma:  Arrependimento, não tenho, porque não me arrependo do que faço, porque faço com consciência. Então, faria tudo outra vez, mas faria com algumas mudanças. Agora eu estou mais esperta.

Portelamor: Conte-nos como foi sua reação ao seu primeiro campeonato pela Portela e os campeonatos que se seguiram, a partir de 1957.

Vilma: Minha experiência foi muito boa. Foi muita alegria, porque entrei com o pé direito na Portela. Apesar de que, na União de Vaz Lobo, eu já tinha meu nome lá. Mas, na Portela, foi muito bom, me ajudou a crescer. Cada vez eu queria mais e mais. Junto com o Natal, eu me encontrei na Portela e aprendi muito com ele: as malícias, tudo. Então, eu ia para a avenida com certeza de que eu ia brilhar e arrumar os pontos para a minha querida Portela.

Portelamor: Depois de tanta aclamação, prêmios, eleita como a maior porta-bandeira de todos os tempos, após tantas notas dez, 5 Estandartes de Ouro, o que lhe motivava a continuar, a ir à avenida com alegria, a desfilar na Portela?

Vilma: Eu não tenho mais Estandartes de Ouro porque teve um período que eu não saí na Portela. Foi nesse período que começou o Estandarte de Ouro. Eu acredito que, se eu estivesse dançando na Portela naquela época eu ganharia eles todos, até eu parar de dançar. Mas, tudo bem, eu me sentia, me sinto muito feliz com isso tudo que eu adquiri no samba. Eu aprendi a gostar da avenida. Mesmo agora que eu não saio em Escola de Samba, eu quero ir para a avenida. Eu adoro aquela avenida. Eu adoro encontrar o povo. Quando eu passo, eles me gritam, falam comigo. Os amigos, mesmo, que às vezes eu fico o ano todo sem ver, quando eu chego na avenida, eu vejo todos. E eu adoro ver os desfile das Escolas de Samba, ver coisas bonitas, as roupas, os carnavalescos. Eu adoro aquela avenida. E eu acho que eu vou morrer naquela avenida.

Portelamor: Houve alguma situação inusitada ou uma surpresa desagradável antes de algum desfile?

Vilma:  Inusitada, houve. Houve um ano em que eu estava bordando a minha roupa, Natal é quem me dava o material e ele me deu tarde o dinheiro. A roupa atrasou. Quando eu olhei na televisão, já estava para a Portela entrar. E eu ainda estava bordando minha roupa. Eu morando em Madureira e o carnaval lá na avenida. Eu disse, “putz grilo”, mas eu não gostava de sair sem a minha roupa estar toda bordada. Conclusão: deu na TV que a Portela estava com um carro quebrado. Eu pensei, isso foi bom pra mim, mas foi ruim para a Portela. Um repórter disse que a Portela iria atrasar porque quebrou uma alegoria. Aí, eu acabei de bordar minha roupa, a família toda me ajudava a bordar a roupa, me vesti, sem tomar banho, passei um pó no rosto e fui para a avenida. Quando cheguei no Cais do Porto, o pneu do carro estourou. Mazinho nervoso, mas a gente ia em dois carros, porque naquela época íamos já vestidas dentro do carro já, e atrás vinha o outro carro, com minha irmã, para quando eu soltasse do carro, ajeitar minha roupa. Quando chegou o outro carro, saltou todo mundo, eu entrei e fui para a avenida. Quando cheguei, o pessoal avisou ao Natal que eu havia chegado. Aí ele disse: “Você, Ilma (ele trocava meu nome, não me chamava de Vilma, não), ainda me mata do coração”. Eu disse, “me dá o dinheiro mais cedo”. Aí ele virou para o pessoal e falou assim: “Bota a roda na alegoria e vamos embora, vamos entrar”. Eu disse, “Ué, não quebrou?”. E Natal me respondeu, “Não, eu que tirei, pra te esperar. Como é que eu ia sem a Porta-Bandeira?” Aí eu vi o quanto eu era importante para a Portela. Eu achava que eu era importante só porque carregava a bandeira, mas a minha pessoa também era importante. Eu senti isso, nunca mais atrasei.

Portelamor: Qual foi o momento de maior satisfação, mais importante como Porta-Bandeira?

Vilma: Eu ia para a avenida carregando o símbolo da Portela, que é a bandeira, então para mim, eu me sentia uma rainha. Para mim, todos os anos que eu saí de Porta-Bandeira foram importantes.

Portelamor:  O que a senhora espera para o próximo carnaval e para o futuro do carnaval?

Vilma: Esse ano, para mim, não terá carnaval. Com esse vírus da Covid não dá mesmo para ter carnaval. E além de nosso público, ainda vem o público de fora e isso iria piorar muito a pandemia. Eu espero que no próximo ano tenha um carnaval maravilhoso, cheio de esperança para o público, para o pessoal do Rio e de todo o Brasil, porque o carnaval é a alegria do povo, tão sofrido. Então, eu espero que ano que vem tenha um carnaval maravilhoso e que eu esteja na avenida assistindo.

Portelamor: Vilma se despede.

Vilma: Meus queridos da Portelamor, do site, o grupo todo, eu desejo a vocês que quando voltar o carnaval que vocês venham para avenida maravilhosos, para a gente animar a Portela e que a Portela seja campeã com a gente. Um beijão grande e muito obrigada pela oportunidade de eu falar com vocês.

* A Rua Dona Clara e a Rua Capitão Macieira ficam no famoso subúrbio de Madureira, um polo irradiador de cultura, especialmente do samba. Na Rua Dona Clara, 239, encontra-se o campo do Brasil Novo, área destinada à prática de esportes.

** Night and day foi uma famosa boate situada na Cinelândia. Funcionou no Edifício Serrador, Centro do Rio de Janeiro, entre as décadas de 1940ª 1960, marcando a noite carioca, tendo recebido em seu palco, dentre outros, Josephine Baker, Amália Rodrigues e Tommy Dorsey, além de artistas nacionais. Carlos Machado (José Carlos Penafiel Machado, Porto Alegre, 16/03/1908 – Rio de Janeiro, 05/01/1992), chamado de “O Rei da Noite”, assumiu a direção artística da boate em 1947.