Os 80 anos de Surica (e de Manaceia)

É preciso muito cuidado para chamar alguém de baluarte. É preciso mais cuidado ainda antes de chamar alguém de mito. No Programa do Bial de 25 de agosto deste ano da Graça de 2021, para comemorar os 80 anos de Surica, nascida em 17 de novembro de 1940 (a pandemia atrapalhou), e o aniversário de nascimento de Manaceia (nascido Manacé José de Andrade, em 26 de agosto de 1921), o apresentador convidou a própria Surica e Áurea Maria, filha de Manaceia, para uma conversa. Entre muitas memórias, recordações e sambas, Bial perguntou às duas se haveria o carnaval de 2022 e qual a expectativa delas para a volta da festa. Ao que Surica imediatamente respondeu: “Eu não estou tão preocupada com o carnaval, eu estou preocupada com essas pessoas desabrigadas, muita gente passando fome, empresas fechando, desabrigando as pessoas. O carnaval, se não tiver esse ano, terá o ano que vem. O importante é ver o lado dessas pessoas”. É aí a crônica que chega prontinha.

Surica é uma mulher negra, sambista, suburbana, vinda das camadas pobres e sofridas de nosso povo. Trilhou todos os caminhos na Portela até se tornar hoje a matriarca e a voz feminina mais importante da Escola. Sua fala acerca do povo sofrido, passando fome nas ruas vem carregada de ancestralidade e consciência crítica. Negra em um país racista; sambista em país que marginalizou essa arte; lutadora, porque o destino de mulher negra suburbana é mesmo a luta; mulher, em ambiente dominado por homens, o lugar de Iranette Ferreira Barcellos foi sendo construído na batalha rumo ao centro dos palcos: baluarte, sim!

Recentemente, a “Feijoada da Tia Surica”, que já era uma marca importante, tornou-se Patrimônio Cultural Imaterial do Estado do Rio de Janeiro, conforme a Lei 9.459, de 2021. Isso não é pouco, mas tem muito mais. Sambista reconhecida, coube à sua voz registrar os 100 anos de nascimento de outro imortal da Academia Brasileira de Samba de Oswaldo Cruz e Madureira: Manaceia. Nascido em 26 de agosto de 1921, Manaceia teve a devida homenagem no álbum Conforme eu sou (2021). Ouvimos Surica desfilar por canções muito conhecidas, como “Volta, meu amor” (única parceria de Manaceia no álbum, com a filha Áurea Maria); a imbatível “Quantas lágrimas” e “Nascer e florescer”, clássicos instantâneos.

Das 12 canções do álbum algumas são mais, outras menos, conhecidas. Todas clássicas, representantes legítimas da poesia daquela região do subúrbio carioca e da elegância do samba portelense. A natureza sempre comparece, nos belíssimos versos de “A natureza”: “Quando a natureza se aborrece/ Toda a beleza na Terra desaparece/ O céu todo escurece/ A chuva logo desce/ Mas isto desaparece/ Quando o céu se resplandece/ Os raios de sol logo descem/ Clareando todo universo”. Vêm da filosofia portelense, em conluio com a natureza representando a fugacidade da vida, os versos de “Nascer e florescer”: “A nossa vida é nascer e florescer/ Para mais tarde morrer”.

Manaceia sabia, como Surica também sabe, que a brevidade da vida só pode ser plenamente preenchida pela arte e pela potência de viver. Por isso, é natural que a sobrevivência dos que passam fome nas ruas desse Rio sofrido de meu Deus, se coloque acima do carnaval. Não há alegria quando se passa fome. Fome de pão, fome de arte, fome de espírito livre, em um país tão triste como o nosso Brasil de hoje. Brasil de gente estúpida, gente hipócrita, já cantou há algum tempo o agora imortal Gilberto Gil, salve nosso negro eterno! Pairando sobre toda essa pequenez, vem o canto de Surica nos aliviar, ancestralidade misturada com a sabedoria que nos aconselha: “Alegria, meu filhinho, alegria/ Mande a tristeza embora e caia na folia” (da canção “Conselho de mamãe”).

Mas a tristeza vem, especialmente do mal de amor (“Meu coração não te esqueceu/ Quando acordei não te encontrei/ A saudade hoje mora no meu coração”), poesia do subúrbio tão representativa de um romantismo tardio e presente nesta “Inesquecível amor”. Porém, sempre se pode pegar a viola e dela tirar uma canção, remédio poderoso. Não bastassem essas pérolas, somos brindados com “Flor do interior”, que relembra nossa eterna Mineira, Clara Nunes: “A Velha Guarda da Portela chorou, chorou/ Até hoje ainda chora/ Sua madrinha foi embora/ Só a saudade que ficou/ Foi triste a despedida/ Da flor Clara do interior” (“Flor do interior”).

Ver na televisão Surica e Áurea, lado a lado, duas mulheres negras e guerreiras, fina flor do samba suburbano, e brasileiro, e universal; provar da feijoada imaterial de Surica e ouvir seu álbum majestoso é um privilégio dado a poucos povos. E essas figuras imensas são nossas.

É preciso muito cuidado antes de chamar alguém de baluarte.

Mais cuidado ainda para chamar alguém de mito.

Salve Áurea, salve Surica, salve Manaceia!

Parabéns Tia Surica, pelos 80 anos e obrigado por toda a beleza.

P. s. Por favor, comprem o CD (antes que depois só tenha nos sites de usados a mil Reais). Ajudem nossa música a seguir em frente. Podem encomendar pelo telefone (e /ou pelo ZAP): (21) 99320-2622. Chega direitinho, como chegou o meu.

Ouçam sem moderação!

Avante, Portela!