Recordando a Portelamor, 10 anos (2)

Paulo Oliveira

Entre 20 de fevereiro de 2011 e 02 de abril de 2016, a então Torcida Portelamor fez a sua história nas arquibancadas da Sapucaí, com dedicação e amor pela Portela. Quando em 2016 nos transformamos em um Grupo, pelas razões já expostas em outros momentos, estava claro para nós que toda expressão de amor é boa, porque vem do coração. Ser um instrumento de divulgação da Escola, de celebração de seus baluartes e de pesquisa nas belas páginas de uma história escrita por uma multidão de bambas, a maioria anônimos, para nós traduziria a mesma paixão da extinta Torcida para com a altaneira. As torcidas para a Portela se multiplicaram, a semente que Jorge Anselmo ajudou a plantar, lá nos tempos da pioneira Guerreiros da Águia e depois com a Portelamor, se disseminou, mas o jardim azul e brando é enorme, seu solo é fértil. Na Portela, tudo cabe, tudo vale a pena, se a alma não é pequena, já dizia o poeta. As sementes lançadas em 2016 foram outras, no entanto, os frutos são igualmente saborosos. Travar contato com o ontem e trazê-lo para o hoje só fez renovar nosso afeto e admiração pela Escola e esse sentimento não tem preço. Muitos têm sido os momentos inesquecíveis na nova jornada, mas tenho certeza que Jorge, Zé, eu e os colegas do Grupo concordaremos que três deles foram os mais emocionantes.

Por ordem cronológica, recordo a visita emblemática à Casa de Dona Dodô, no Morro da Providência, em 2014. Visitar aquela morada, lugar de tantas lembranças, de tantos objetos que simbolicamente representavam quase oito décadas da história cultural da cidade do Rio de Janeiro, dos pretos, da gente pobre dessa pátria nem sempre mãe gentil e muitas vezes desigual e racista, era como viajar através da história vitoriosa da cultura negra, incorporada naquela senhorinha de aparência frágil, mas com a garra de leoa (ou águia?). Ali, um pedaço importante da memória histórica do samba, da cidade do Rio de Janeiro, do Carnaval e da Portela se revelava a nossos olhos. Essa foi uma das maiores alegrias dos tempos de Torcida Portelamor. Não posso falar por Jorge Anselmo, só ele pode descrever a emoção sentida, nem pelo Zé Alves, que tinha uma relação próxima com Dona Dodô, porém, para mim, foi um reencontro comigo mesmo, com minha infância em Turiaçu, com a lembrança de meus avós maternos, que me criaram e foram responsáveis pela minha adoração à Portela. Estar na casa de Dona Dodô, ouvi-la contar suas muitas histórias, explicar a razão de ser daqueles objetos e, alegria das alegrias, colocar em nossas mãos a bandeira do primeiro título da Portela, em 1935, e não só: nos ensinar como segurar a bandeira, como envolvê-la em nossos corpos, como um amante enlaça seu grande amor, foi algo mágico. A história viva daquela guerreira negra, de corpo pequeno, mas que se agigantava diante de nós, nos tomou de surpresa. Gratidão, Dona Dodô. E que pena aquela Casa-Museu ter sido dilapidada. Sinto, não por Dona Dodô, que viveu a glória de uma vida grandiosa, mas por nós, que vamos perdemos aos poucos os pedaços de nossa história.

Um segundo momento foi a entrevista, também em 2014, com Seu Monarco, a princípio, em uma padaria, perto de sua casa, mas que acabou no corredor e depois na sala de nossa amiga Elisabete Gomes, a Bete, vizinha de rua de Monarco, no bairro Riachuelo. Baluarte que hoje representa a grande herança do samba e da cultura portelenses, Monarco estava comemorando em 2014 o lançamento de seu CD Passado de Glória, na celebração de seus 80 anos de vida. Foi um ano de grandes conquistas, de flores em vida e reconhecimento merecido de uma vida e trajetória artística ímpares. O que seria um papo de uma hora, no máximo, se transformou em uma longa conversa, que certamente atrasou o almoço de dona Olinda (que nos ajudou muito!), pois o mestre estava com as sacolas da feira, onde tinha ido comprar verduras e frutas para a refeição do dia. Mas acho que o mestre, para nossa alegria, estava feliz em falar de tantas páginas belas e foi deixando a vida levar a conversa, nos brindando com sua memória prodigiosa. Na entrevista, algumas revelações importantes e até um samba jamais gravado foi cantado por ele. É preciso muito cuidado para não vulgarizarmos a palavra mestre. Monarco certamente é um deles. Esse foi mais um dos momentos em que eu e Jorge Anselmo saímos em estado de graça e, é claro, foi comemorado com uma cervejinha gelada, em um bar ali perto da casa do mestre, com nossa anfitriã, Bete.

O terceiro grande momento não poderia ser outro: a vitória da Portela, em 2017. Estávamos reunidos, eu, Jorge, Vitor, Josimar e outros poucos colegas, no setor 12, onde esticamos nossa orgulhosa faixa, aguardando a abertura dos envelopes, confiantes. Aos poucos, nota a nota, a vitória foi se anunciando, torcedores de outras escolas foram se chegando, ao perceberem que a vitória da Portela era cada vez mais certa. A cada quesito, cada nota 10, o grito de campeão foi se formando na garganta, e após o resultado pudemos soltar a voz e lavar a nossa alma. Suor, lágrimas, abraços. Ali, o samba se fez pleno, perfeito, imortal. Era amizade, carinho, gratidão, união. Jamais esquecerei aquele acontecimento em minhas retinas cansadas, eu diria, ousando plagiar o poeta Carlos Drummond de Andrade. Pouco tempo depois, ainda no calor das emoções, escrevi algumas palavras para uma crônica que surgia na tela do computador tendo lágrimas como testemunhas:

Para além do tão sonhado título, a Portela existe e existirá, porque faz do samba sua religião. O samba é nossa forma de existir e caminhar neste mundo. É desse rio de memórias, histórias, dramas, aventuras e desventuras que a Portela retira a força necessária para navegar, muitas vezes, contra a corrente. É naquele mesmo chão onde um dia Paulo da Portela pisou que os portelenses de agora lançam novas sementes. E que venha o futuro! (para ler a crônica completa, acessar: www.portelamor.com.br, Crônicas, 03/03/2017).

É a esse futuro que hoje lançamos nossas vidas. Eu agradeço à Portelamor por ter me propiciado esses e outros momentos, em que, como nunca, entendi o verdadeiro significado da amizade e da paixão e da força do samba em unir os corações e mentes.

Avante, Portela!!!