A arte, a lei da gravidade, o samba-enredo e a paix„o

Paulo Oliveira

Tentar definir o que a arte é faz parte do percurso do pensamento filosófico. O fato de que não chegamos até hoje a uma conclusão sobre a verdade da arte, pois isso é impossível, só torna a matéria mais interessante. Não há como definir objetivamente o que a arte é, nem seu valor. Não há uma lei universal que valha para a arte, como a lei da gravidade, como a fórmula da água. A arte estará sempre exposta a critérios ideológicos, sociais, culturais, políticos e também econômicos.

No caso do samba-enredo, quando dizemos que um é melhor do que o outro, por exemplo, quase sempre o avaliamos a partir de pressupostos que dizem mais respeito àquilo que pensamos, nossas crenças e ideologias do que à obra em si. Isso porque não há lei universal e científica que determine a qualidade de uma obra. Não adianta eu dizer que “não gosto” da lei da gravidade. As coisas continuarão a cair para baixo, seja aqui, na China, em Angola. Mas quando digo que um samba é o melhor, revelo minha visão de mundo sobre como deve ser uma obra artística. E isso implique, quase sempre, na defesa de ideias imprecisas que não podem ser plenamente comprovadas. Chamamos isso de “gosto”.

Porém, se há coisas que não podemos cientificamente provar, nada impede que as pensemos. Nem de lutarmos por elas. E é nisso que se funda a arte. É uma atividade humana, imprecisa, porque somos sujeitos imprecisos, porque humanos. Uma disputa de samba, como o nome mesmo diz, já é, em princípio, uma batalha que envolve muitas paixões.

Especialmente neste ano de 2019, a Portela e outras Escolas que assim o fizeram têm o mérito de valorizar seus compositores e manter a tradição da disputa de samba-enredo. Parece óbvio que uma escola que se chama Grêmio Recreativo Escola de Samba Portela preze seu bem maior: o samba-enredo e aqueles que o compõem. Mas hoje não tem sido exatamente assim. Escolas têm optado pela encomenda. Tudo bem, mas pensemos. Um Grêmio é lugar de encontro de pessoas com objetivos comuns que estão ali para recrear (pois é um Grêmio Recreativo), brincar, se divertir. Escola é onde se aprende e, no nosso caso, se aprende o samba, já que nos intitulamos Escola de Samba. E Portela é Portela. Se há tesouros ali, esses são a Velha Guarda, a Ala dos Compositores, sua história, sua memória, sua poesia. Então, só temos que nos orgulhar de uma disputa que convoca o que há de melhor para uma escolha construída passo a passo, com suas virtudes, mas também com seus percalços.

A disputa implica apenas um vencedor. Como dissemos, escolher o “melhor” não é algo que se dê objetivamente. Há visões estéticas, ideológicas, mesmo religiosas e de caráter pessoal envolvidas nessas escolhas. E, sem sermos ingênuos, pressões econômicas e políticas. Observa-se a força da grana, dos que podem investir na divulgação de sua obra, seja nas mídias, na quadra, com torcidas etc. Faz parte do jogo atual. Mas, ao final, a decisão cabe a um grupo. Toda escolha é escolha de um grupo, escolhido para decidir qual hino representará a escola na avenida. Isso também é parte do jogo. Na arte, como na vida, não há justiça para todos. Apenas um poderá chegar lá.

Baseados em um enredo claro e poético, bem estruturado – ao contrário, em nossa opinião, do confuso enredo de 2019 – os compositores apresentaram suas armas e foram à disputa. No momento em que escrevo, cinco deles estão na semifinal. Três irão disputar o tão sonhado lugar ao sol. As paixões estão na arena. Para os poetas, sua obra obviamente será sempre a melhor. Mas o julgamento das obras não cabe aos artistas. A eles cabe criar. O julgamento é do público e, no caso do samba-enredo em disputa, dos julgadores. O que nem sempre quer dizer muito. Pensemos em “Estrela de Madureira” (Acyr Pimentel / Ubirajara Cardoso), samba derrotado no Império Serrano, que ganhou luz própria e brilha no céu da MPB, ganhando uma consagração maior do que o samba-enredo escolhido. Mas se o samba é paixão, não podemos tratá-lo pela lógica da lei da gravidade. Para cada um de nós, é claro, há o melhor ou pelo menos o que entendemos ser o melhor. E se nosso samba não vingar é porque os julgadores foram injustos, já que não viram e sentiram o que nós vimos e sentimos. Assim são as paixões. Subjetivas.

De tudo o que foi dito, permanece a certeza de que, se somente um poderá representar nossa escola, ela permanece pujante como Grêmio Recreativo Escola de Samba Portela. Consegue reunir pessoas em torno de uma ideia perene, de que ali se aprende e ensina samba, de que ali as pessoas se reúnem em torno de um ideal comum: levar adiante a bandeira azul e branca e a chama do samba. As disputas passarão, as paixões arrefecerão, mas ao final, a Escola permanecerá. E que venham os próximos enredos, as próximas disputas.

Avante Portela!!!