Os governos dos idiotas e o samba

Paulo Oliveira

Para os que foram mal alfabetizados e que por conta de suas limitações intelectuais não compreendem o que leem e, portanto, veem o mundo guiados por sua cegueira, a atividade do pensamento é algo supérfluo e perigoso, portanto, inútil. A decisão do governo federal de destruir as Humanidades faz parte deste projeto de nivelamento da educação por baixo, tentando alçá-la ao mesmo baixo nível de reflexão dos atuais mandatários. E o que o mundo do samba tem a ver com isso?

As Humanidades são hoje uma das poucas áreas do conhecimento em que se luta pela diversidade, pelo direito das “minorias culturais” (com milhões de aspas) de terem um lugar ao sol. O samba, mesmo com sua história vencedora, somente há pouco tem sido objeto de estudos acadêmicos “sérios” (e bota mais aspas nisso). Para governos que dizem que a universidade não é para todos e mesmo a suposta alta cultura passa a ser supérflua (já que eles, na sua estultice, não a entendem, então, ela não serve para nada, é a conclusão lógica dos tacanhos), qual será o destino das manifestações populares como o samba? Produto de pretos pobres e periféricos, de homens e mulheres suburbanos, o samba seria o supérfluo dos supérfluos. Poesia, música, arte? Aquilo é cultura ou é produto de desocupados? São as perguntas que não querem calar na boca dos bizantinos.

Não adianta dizer, para um governante que não consegue ler um texto primário no teleprompter sem tropeçar nas palavras, e para outro, que lê o mundo através de sua ignorância e má-fé religiosa, que a cultura popular é, sim, manancial de riquezas. Para eles, não faz sentido que uma única Escola de Samba seja responsável pelo sustento de centenas de pessoas, direta ou indiretamente. Sequer conseguem pensar seu mundinho minúsculo pelo viés da economia, como está fazendo São Paulo. Eles não saberão que a cultura serve inclusive para ajudar o supremo mandatário da nação a melhorar sua exígua competência leitora, algo que qualquer criança bem alfabetizada, inclusive a alfabetizada na escola do samba, possui.

O samba nasceu de um projeto humano, de sujeitos negros, pobres, favelados, suburbanos, seja no Centro da cidade da outrora cidade maravilhosa seja na – naquela época – longínqua região de Oswaldo Cruz. Aqueles sujeitos imensos, imbuídos talvez, quem sabe, apenas de um desejo de se expressar artisticamente e de criar seus próprios mecanismos de simbolização ou somente de se divertirem, foram transformando seu produto cultural em algo cada vez mais sólido, imponente, ao ponto de transformarem a festa e o ritmo então marginalizados em símbolo nacional. A compreensão desses processos requer o estudo da história, da antropologia social, da sociologia, da cultura, mas não somente os estudos que constam nos manuais oficiais, nos quais lemos que os “grandes heróis” (e tome aspas) da pátria não são figuras como nós, mas sujeitos de uma alta casta. Na verdade, se estudarmos a evolução do samba, aprenderemos que muitos desses “heróis” são na verdade genocidas, ditadores, escravocratas, exploradores, verdadeiros facínoras da pátria. Façamos uma pesquisa breve: andemos pelo Centro do Rio de Janeiro e depois nos informemos sobre quem foram aquelas figuras homenageadas com nomes de ruas. Ficaremos surpresos com o número de homicidas, racistas, verdadeiros marginais ali contemplados.

O samba, ao contrário, “nasce do coração”, já disse Noel Rosa, e por isso está mais perto de uma noção de cristandade e humanidade do que muitas religiões; está mais próximo da verdadeira política, da cidade ideal e utópica pensada por tantos filósofos, pois tem no acolhimento e na alegria, na vitalidade e na poesia seus modos de ser. O samba é revolucionário, porque sua mudança vem através da Philía, palavra grega que significa ora amizade (amizade) ora amor. Guimarães Rosa já disse em seu único romance que “amizade dada é amor”. Por isso, como poetizou Noca da Portela, em “Peregrino”, “Ninguém vive feliz se não puder falar/ E a palavra mais linda é a que faz cantar/ Todo samba no fundo é um canto de amor”.

Samba é amor. Viva o samba!

Avante Portela!!!