Velhas companheiras

Paulo Oliveira

Em de 04 de agosto de 2019, o Grupo Portelamor estreou novo projeto: “O samba dominando o mundo”. Neste ano morno, estranho e preocupante para o mundo do samba e do carnaval, e com a festa ameaçada, partir para novos caminhos, novas pesquisas é sempre uma oportunidade de manter acesa a chama do samba. De início resistentes à ideia de trazer obras e compositores de outras escolas, já que somos um grupo que pesquisa somente Portela, atendemos aos pedidos de seguidores das outras agremiações, ampliando o espaço musical da Rádio Manaceia.
Como sempre acontece no grupo, o que começa como um trabalho despretensioso acaba virando paixão e a paixão pelo samba fala sempre mais alto. O primeiro resultado é esta singela homenagem à Estação Primeira de Mangueira. Uma iniciativa tímida que foi se revelando oportunidade para entendermos também nosso lugar e nossa história como um grupo de portelenses: somos apaixonados pela trajetória do samba e cada projeto no fundo fala muito de nós mesmos, nessa relação de amor que tem sempre a Portela como Norte.

Não acredito em destino, mas em acontecimentos que vêm ao encontro de nossas vidas. Lembro-me de uma edição do “Portela na Lapa” (que já deixou saudades) em que mestre Monarco encontraria seu velho companheiro mangueirense Nelson Sargento. Era abril de 2017. Adoentado, Monarco não pôde comparecer, mas o baluarte verde e rosa marcou presença e deu seu belo recado. De idade avançada, seu Nelson teve foi amparado por dois rapazes, em uma cadeira e conduzido ao segundo andar da casa, de escadas muito estreitas. Lá, o frágil Sargento, ao se apresentar, agigantou-se. Foi ele quem disse que o samba agoniza, mas não morre. Seu Nélson é a prova viva disso e ali naquele espaço portelense nos brindava com um pouco da beleza que cultivou por toda a vida, junto com seus companheiros de samba. Era mais um capítulo de amizade, a despeito das rivalidades, entre as vitoriosas Mangueira e Portela. São muitas páginas belas, escritas em azul, branco, verde e rosa. A noite foi de celebração, privilégio de ver e ouvir de pertinho uma lenda do samba homenageando a amizade. Presente da vida.

No dia seguinte, busco na estante uma reedição do álbum Velhas companheiras, em CD de 1999, e lá estavam na capa Monarco, Nelson Sargento e Guilherme de Brito, três gigantes. A velha amizade “espelha um país mais real, um país mais que divino, masculino, feminino e plural”, cantou Cetano Veloso e esses versos são a mais perfeita tradução do samba portelense e mangueirense. Neste álbum se canta um pouco da história das duas agremiações que juntas detêm metade dos títulos do carnaval carioca. Que nos deram Cartola, Paulo da Portela, Paulinho da Viola, Nelson Sargento, Carlos Cachaça, Candeia, Monarco, Nelson Cavaquinho e tantos outros bambas. As omissões são inveitáveis.

Nas páginas belas de Portela e Mangueira, destacamos a amizade de Paulo da Portela e Cartola. Em 1937, voltando da primeira excursão de sambistas ao exterior, ao chegar em cima da hora para o desfile, Paulo se desentendeu com diretores da Portela, que não permitiram a entrada de Heitor de Prazeres e Cartola, que não estavam vestidos com as cores da agremiação. A briga rendeu a saída de Paulo da escola, que mais tarde escreveria e belo e doloroso “O meu nome já caiu no esquecimento”, cujos versos dizem: “O meu nome já caiu no esquecimento/ O meu nome não interessa a mais ninguém/ E o tempo foi passando/ A velhice vem chegando/ Já me olham com desdém/ Ai quanta saudade do passado/ Que se vai lá no além/ Chora cavaquinho chora/ Chora violão também/ O Paulo no esquecimento/ Não interessa a mais ninguém Chora Portela, minha Portela querida/ Eu que te fundei, serás minha toda vida”.

Cartola, por sua vez, escreveria uma canção exaltando o acolhimento no morro de Mangueira, o antológico “Sala de recepção”: “Eu digo e afirmo que a felicidade aqui mora/ E as outras escolas até choram/ Invejando a tua posição/ Minha mangueira essa sala de recepção/ Aqui se abraça inimigo/ Como se fosse irmão”. A relação entre Cartola e os portelenses teria desdobramentos futuros. Cartola deu o primeiro “emprego” a Paulinho da Viola, no lendário Zicartola. Deste encontro nasceu outra grande amizade. A relação de admiração mútua rendeu a Paulinho a responsabilidade de ser o sucessor de Cartola, como o próprio mestre quis. Paulinho inscreveria seu nome na história da Mangueira ao compor com Hermínio Belo de Carvalho aquele que é o hino não oficial da Mangueira, segundo Beth Carvalho, a tradução da alma verde e rosa: “Sei lá, Mangueira”. Nestes versos a bela melodia e o lirismo da letra se casam: “Em Mangueira a poesia/ Num sobe e desce constante/ Anda descalça ensinando/ Um modo novo da gente viver/ De sonhar, de pensar e sofrer/ Sei lá não sei, sei lá não sei não/ A Mangueira é tão grande/ Que nem cabe explicação”.

Veio também da voz de Cartola a imortal “Preciso me encontrar”, de Candeia. Os dois se encontraram na Lapa e Candeia pediu a Cartola que ouvisse o samba, cuja melodia o portelense não conseguia criar. Cartola ouviu Candeia ler a letra e em seguida disse que a melodia já estava pronta, pontuando palavras e frases, apenas. Candeia, já paraplégico, pediu a Cartola que prometesse gravar o samba. Cartola não só o gravaria, mas, impressionado com a letra, decidiu segui-la: “Deixe-me ir, preciso andar/ Vou por aí a procurar/ Sorrir pra não chorar/ Se alguém por mim perguntar/ Diga que eu só vou voltar/ Quando eu me encontrar”.

Recentemente, a portelense Teresa Cristina lançou CD e show dedicados à obra de Cartola. A mangueirense Maria Bethânia saiu em excursão com o portelense Zeca Pagodinho. Bethânia, aliás, muito novinha, foi levada ao samba pelo jovem Paulinho da Viola. A história dessas duas escolas gigantes pode ser contada na sala de recepção onde rivais se abraçam. Deixem Mangueira e Portela ir, precisam andar. Sei lá, não sei, não sei não.

Bela iniciativa do Grupo Portelamor. Que venham as próximas homenagens. E que o samba saia sempre vencedor nesta linda batalha que sempre acaba em poesia.


Avante Portela!