O dever, a paix„o, a raz„o

Paulo Oliveira

No samba “A grande vitória”, o atual Presidente de Honra da Portela assim cantava em seu álbum de 80 anos de carreira: “A Portela espera/ Que cada um saiba cumprir/ Com seu dever”. Em entrevista concedida por Monarco, o mestre nos disse que essa passagem do samba havia sido endereçada à administração Nilo Figueiredo. Monarco chamava o portelense a se unir em prol da Portela. A profecia do samba se cumpriu em 2017, com o sonhado campeonato.

As paixões, em uma escola de torcedores e admiradores ferrenhos, às vezes fogem do controle e enuviam a razão. O filósofo Platão representou as paixões em uma imagem: uma biga guiada por um condutor que tem que lidar com um cavalo branco, bem alimentado e educado, e um cavalo negro, com fome e problemático. A sabedoria, o lado positivo da razão, era representada pelo cocheiro, que da melhor forma conduziria o veículo à verdade e ao equilíbrio. Neste carnaval de 2019, acendeu-se a chama das paixões com o enredo sobre Clara Nunes. O resultado do desfile, ao que parece, também provocou o irracionalismo de muitos. Paixões descontroladas podem fazer com que a biga escape das mãos do cocheiro. Daí, as palavras de Monarco soarem mais sábias ainda: administradores devem saber cumprir seu DEVER; torcedores DEVEM cumprir seu papel de torcer; homens sábios DEVEM saber conduzir a escola pelo melhor caminho possível.

Por se tratar de uma figura emblemática como Clara Nunes, o risco deste desfile era grande: se por um lado acariciava-se a massa portelense, com óbvios frutos políticos a serem colhidos em caso de êxito, por outro, havia o perigo do descontrole das emoções, em caso de fracasso. E aí chego ao ponto desta crônica: o desfile da Portela, que vem mobilizando paixões, algumas raivosas, de todos os lados. O descontrole nos faz esquecer nosso DEVER, como cantou Monarco. De um lado, busca-se um bode expiatório, que no momento é a carnavalesca Rosa Magalhães. Cada um, guiado por suas verdades, esquece a razão no cantinho e ajuda a empurrar a carruagem para as pedras. Por que não cobrar da diretoria como um todo, de sua comissão de carnaval e dos segmentos da escola? Por que o torcedor não pode cobrar? Por que o torcedor tem que “ir lá fazer”, se ele não foi eleito para isso? Sentimos falta das torcidas organizadas para dizer presente no momento mais esperado do carnaval.

Aprendendo com Monarco, eu diria que, nesse caso, uma carruagem espatifada é ruim para todos. Perdemos todos. Cabe à diretoria cumprir seu DEVER como tal e zelar pelo rumo da escola. Não se pode imaginar alguém que aceita a missão voluntária de dirigir a Portela respondendo a críticas com a infeliz frase/cartaz: “vem fazer, então!”. Também não cabe aos torcedores governar por Facebook ou Whatsapp, ao péssimo estilo do atual presidente eleito e de sua família. Neste carro das paixões que é a Portela, seus dirigentes devem agir com sabedoria e razão, mas as paixões, neste momento, parecem vencer. São paixões ditadas pela insensatez e falta de educação do cavalo negro. O abismo pode ser contornado, mas é preciso cuidado: na queda, a única direção é para baixo.

Pensando com a razão, entendemos que o desfile apresentado pela Portela não estava aquém dos demais. O que se viu na segunda-feira de carnaval foi uma sequência de escolas irregulares, ora com plástica boa, mas com sambas e chão fraquíssimos; ora com sambas excelentes, como o da Portela, mas plástica irregular. Nós que assistimos das arquibancadas, não como Grupo Portelamor e sim como simples torcedores apaixonados, não conseguimos detectar nem o propalado desastre nem tampouco o deslumbramento esperado para um enredo sobre Clara Nunes. A verdade é que, mesmo com falhas, não nos decepcionamos tanto com a plástica, mas com alguns segmentos do coração da escola. Se não foi um desfile campeão, tampouco foi o desastre que se lê nas redes. Em alguns momentos, inclusive, a Portela parecia estar acima das demais. Em outros momentos, vimos a crise batendo forte. Houve estranhamentos, especialmente na águia, símbolo maior da escola, uma das piores já vistas em muitos anos. Vida que segue, saímos com a impressão de que foi o que se pôde fazer. Se a carnavalesca não agrada a muitos, no entanto, o resultado final é fruto de conjunto de fatores: de quem dirige, cria, ensaia e desfila. A Portela espera que cada um saiba cumprir com seu DEVER.

Talvez as dicussões sirvam para os dirigentes irritados com as críticas mais acaloradas repensarem seu papel na escola. Como não cabe todo mundo dentro da escola, os eleitos tem o DEVER de conduzir a escola pelo melhor caminho possível, com atenção às críticas negativas. Quando se diz nas redes que vão cortar privilégios de quem agora reclama conclui-se que existe um “toma lá dá cá” nocivo, um erro, tanto da parte dos que concedem quanto dos que recebem as benesses. O DEVER do torcedor é torcer e não aceitar mimos. Entrada na quadra, cerveja, mesa, camarote, comida devem ser pagos e não barganhados. Ameaçar torcedores de corte desses privilégios só aponta para o erro dos dois lados: nenhum dos dois cumpre seu DEVER. Recorro novamente a Monaco, em entrevista à Portelamor: “Quando eu cantei pela primeira vez, ele [O Nilo] foi virando as costas e foi embora. Acho que ele sentiu, quando eu canto “A Portela espera que cada um saiba cumprir com seu dever”, porque o folião, o portelense, o desfilante está cumprindo, carinhosamente, o seu dever. Mas quem não está cumprindo são eles, os donos do dinheiro que está entrando: eles não estão cumprindo. Então eu dei essa alfinetada neles”.

A “alfinetada” serviu para a Portela trilhar um caminho melhor, desviando-se do abismo. Neste momento, as paixões negativas estão vencendo, em detrimento da ponderação. Se há turbulência, é preciso avaliar o cenário como um todo e não cair no perigoso retrocesso que é o diálogo de surdos. Ouvir é parte da missão a que os atuais líderes da escola se lançaram, é seu DEVER; responder com ameaças, ironias e falta de educação não está à altura do DEVER. Cartas de demissão foram feitas para serem usadas quando achamos que nossa capacidade está aquém da tarefa imposta. Aos torcedores apaixonados, na era em que nos escondemos nas telas de computador e nos espaços de covardia e falta de educação que se tornaram as redes sociais, seu DEVER é de criticar sem perder de vista o bom senso e o trato com seu semelhante, ainda que seja um adversário.

 

Quando vamos à quadra e pagamos nossos ingressos, nossa comida, nossa mesa e nossas bebidas cumprimos com nosso DEVER. Quando pagamos ingressos caros para ver a escola desfilar e cantar com ela na avenida, também estamos cumprindo o nosso DEVER. Portanto, o que o torcedor deve à escola é essa paixão incondicional. É direito de todos gostar, não gostar, criticar, elogiar, nos limites da educação e da razão. Quem se lançou espontaneamente à tarefa de administrar uma escola de paixões à flor da pele como a Portela tem que se colocar à altura desse DEVER. Talvez falte maturidade em momentos de paixões exacerbadas, mas é sempre bom lembrar que se morre e se mata em nome do amor, porém, matar e morrer não são exatamente o que se espera de um futuro glorioso.

Liderança é saber ouvir, entendendo a dimensão do verbo DEVER. E que cada um saiba a natureza, a importância e a responsabilidade do seu lugar.

Avante Portela!!!